segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Não existe pior prisão do que uma mente fechada. Texto de Erick Morais.

Carl Jung disse certa vez que “Todos nós nascemos originais e morremos cópias”. Ao analisar a frase de Jung à luz da contemporaneidade, poderíamos encontrar um enorme problema, uma vez que vivemos em um mundo regido sumariamente pela liberdade. Isto é, o fundamento maior da nossa sociedade é a liberdade, que se ramifica em diversos aspectos, desde o econômico até o comportamental. Entretanto, se olharmos com profundidade, perceberemos que essa estrutura de mundo “livre” existe tão somente no plano teórico e, assim, somos só reprodutores da ordem vigente ou simplesmente cópias, como argumenta Jung.

Obviamente, a nossa cosmovisão sofre influências externas, esse é um processo natural. Da mesma maneira que a vida em sociedade necessita de regras a fim de manter o convívio social dentro de certos limites éticos. Sendo assim, pensar no exercício da liberdade como algo ilimitado é impossível, já que todas as coisas possuem o seu contraponto e limitações. Apesar disso, a existência de pontos limitadores não implica a inexistência da liberdade e o condicionamento irrestrito a valores passados por uma ordem “superior”.

Todavia, é isso que tem acontecido, temos sido escravizados ou, lembrando o João Neto Pitta, “colonizados pelo pensamento alheio”. E pior, por uma ideologia extremamente nociva para nós enquanto seres humanos. Fomos reduzidos a estatística, na qual somos divididos entres os condicionados e os condicionáveis. Ou seja, não existe nessa estrutura a concepção de um ser livre, que exerce a capacidade de raciocínio e afeto para discernir sobre o que quer e deseja. Todos são domesticáveis em potencial.

Esse controle é feito por meio da conversão à sociedade de consumo e seus valores fundamentais, que reduz tudo a um valor mercadológico precário, rotativo e obsoleto. A mídia com todos os seus tentáculos está a serviço do grande capital, que não visa outra coisa a não ser a conversão de mais pessoas, contemplando o deus consumo em seu templo maior: os shoppings centers. Lugar de alegria, satisfação, preenchimento de vazios e liberdade irrestrita, pelo menos teoricamente ou midiaticamente. Mas, em um mundo regido também pelas aparências, pelo espetáculo, o importante não é o que é, e sim, o que aparenta ser, sobretudo, aos olhos dos outros.

Aliás, nesse esquema, não basta ter, é necessário parecer que tenha, expor, mostrar, iludir, ganhar aplausos, tapinhas nas costas, sorrisos falsos e olhar invejosos. Em outras palavras, é preciso confessar ao mundo que você é um vencedor, que é um bom filho de “Deus”, que é recompensado por seguir os seus preceitos, ir ao seu templo e contemplá-lo 24 horas por dia. E existem ferramentas muito úteis para isso, as redes sociais que o digam.

Toda essa teatralidade da vida cotidiana, montada com cortinas que nunca se fecham, é apresentada como verdade e nós — com nossa psique altamente fragilizada — a compramos com extrema facilidade. Para os mais duros na queda, nada que mil repetições não sejam capazes de construir, afinal, como disse Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha Nazista: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Apesar disso, a grande maioria de nós não está revoltada com a sua condição, pelo contrário, aceitamos o jugo de bom grado. Ou pior, o buscamos. É claro que não possuímos o domínio das relações de força na sociedade, não controlamos as leis, o sistema jurídico, tampouco, a mídia. Somos “apenas” espectadores vorazes de uma batalha desigual e opressora. Entretanto, será que não há o que ser feito? Será que não existem alguns pontos de luz que tentam nos iluminar? Eu sei o quanto é difícil se libertar e quão alto é o preço que se paga pela liberdade. Mas de que adianta ter o conforto de uma vida “segura”, se é por meio dessa “segurança” que a servidão e os males decorrentes desta se tornam possíveis?

Como disse Rosa Luxemburgo: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. É preciso, então, se movimentar, correr, gesticular, falar, até que o som das correntes seja insuportável e nós consigamos despertar de um sonho ridículo que apresenta um espetáculo celestial em meio a um inferno cercado de grades manchadas com sangue, suor e sofrimento. Se uma mente que se abre jamais volta ao tamanho original, a que se liberta jamais aceita retornar à prisão; porque por mais que as condições sejam adversas, o princípio da autonomia está dentro de nós, quando decidimos romper o medo de abrir os olhos e passamos a enxergar. Sendo assim, o cárcere não é criado do lado de fora, é criado do lado de dentro, já que a chave que prende é a mesma que liberta, pois não existe pior prisão do que uma mente fechada.

Filhos educados por pais homossexuais.

Muitos continuam achar que os filhos educados por pais homossexuais vão ser crianças com baixa-estima. Os problemas não são elas. O problema é que estão inseridas numa sociedade repleta de preconceitos onde muitos têm a tendência de apontar o dedo ao invés de compreender.
Abílio de Sousa

Só precisamos de estar despertos, vivos no momento presente." De Thich Nhat Hanh

Podemos sorrir, respirar, andar, e comer as nossas refeições de uma forma que nos permita estar em contato com a abundância de felicidade que está disponível. Somos muito bons a preparar-nos para viver, mas não muito bons a viver. Sabemos como sacrificar dez anos por um diploma, e estamos dispostos a trabalhar muito para arranjar um emprego, um carro, uma casa, e assim por diante. Mas temos dificuldade em lembrar que estamos vivos no momento presente, o único momento em que temos de estar vivos. Cada respiração que nós fazemos, cada passo que damos, pode ser cheio de paz, alegria e serenidade. Só precisamos de estar despertos, vivos no momento presente.


Thich Nhat Hanh

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Era da Indiferença. Por Erick Morais.

Quão valiosos somos para as outras pessoas? Não digo qualquer pessoa, mas para aquelas que dizem se importar conosco. Quão importantes de fato somos para elas? Tenho me pegado pensando constantemente nisso e por mais que você tenha uma visão esperançosa em relação ao homem, parece-me que realmente vivemos na era da indiferença.

A vida contemporânea exige muito de nós, isso é algo sabido por todos. No entanto, isso não justifica o modo como agimos uns com os outros. As relações são meramente questões de conveniência, é uma troca de fardos no mercado da personalidade, de tal maneira que apenas me aproximo de determinada pessoa e mantenho uma relação com ela se houver algo dela que possa usar. Ou seja, as relações humanas seguem lógicas comerciais e, assim, todos nos tornamos mercadorias.

Obviamente, não estou querendo dizer que devemos nos submeter a relações degradantes, que apenas usurpam nossas forças ou que não devemos esperar reciprocidade ao se envolver com alguém. Mas, ao implementarmos uma lógica comercial às relações humanas, deixamos de considerar totalmente as nuances e complexidades que formam o ser humano.

Isto é, ninguém está bem o tempo inteiro, tampouco, possui uma constante na vida. Todos nós temos nossos dias ruins, passamos por problemas e atravessamos os nossos períodos de crise, de modo que, ao doutrinar as relações humanas à cartilha comercial, os pontos baixos da vida de um indivíduo são desconsiderados, o que implica automaticamente a descartabilidade daqueles que sucumbem às suas fraquezas.

Sendo assim, somos tão somente importantes e amados na medida em que temos um sorriso no rosto, uma história engraçada para contar e somos úteis de algum modo. Em outras palavras, somos queridos apenas nos nossos bons momentos, quando estamos no auge e tudo parece dar certo. Entretanto, como disse, a vida não é uma constante, de maneira que inevitavelmente passaremos por momentos ruins, em que tudo dá errado e nós perdemos a esperança.

Nesses instantes, percebemos a fragilidades dos laços humanos e a nossa indiferença, a nossa incapacidade de se colocar no lugar do outro e buscar entender o porquê do sofrimento, da angústia, da insônia, do medo e da lágrima oculta no olhar, porque quando uma relação é construída com laços fortes, lutamos contra o egoísmo para poder sentir a dor que aflige e esmaga o peito de quem sofre.

Quando uma relação é mais do que uma ação na bolsa de valores do amor líquido, temos empatia e esta não é ver uma pessoa triste e fazer coisas para que ela fingir estar feliz. É ver uma pessoa triste e ser capaz de ajudá-la a chorar.

Acho que os nossos tempos estão carentes de pessoas corajosas o bastante para abraçar alguém e dizer que a ama enquanto as lágrimas se precipitam e anunciam uma torrente de dor em forma de choro intercalada com soluços. Por outro lado, o mundo está repleto de pessoas que abraçam e riem junto com você, mas, tão somente enquanto você também estiver com um sorriso no rosto. Pessoas que descartam as outras com imensa facilidade quando outras ações, digo, pessoas, acenam com possibilidades melhores e sorrisos mais audaciosos.

Tudo isso é uma pena, porque, no fim das contas, todos nós precisamos de alguém que nos ajude a chorar, já que só lágrimas de compaixão podem limpar a alma da indiferença. E como as lágrimas não caem, porque estamos ocupados demais com nossas trivialidades mesquinhas, o mundo continua sujo, ecoando pelos esgotos a nossa era da indiferença.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O medo da escolha em tempos de excesso. Texto de Claudia Zalaquett

Desde pequenos somos ensinados sobre a importância de fazer boas escolhas, afinal, são elas que determinam os nossos próximos passos, que abrem caminhos, que projetam o futuro. Viver é ter que escolher o tempo todo.

Às vezes acho que fazer escolhas já foi uma tarefa mais simples. Antigamente existiam menos opções em relação a tudo, logo, as pessoas se sentiam satisfeitas com menos também. Hoje, tomar decisões se tornou um assunto bem mais complexo.

Devido ao excesso de informações e possibilidades que a vida moderna nos oferece, é cada vez mais comum nos sentirmos sufocados, indecisos e confusos. A clareza se perde no meio de tantas alternativas e o medo de fazer escolhas erradas nos paralisa.

Com isso, muitas vezes, passamos a inventar desculpas e criar obstáculos que nos impedem de tomar decisões importantes e de realizar determinadas tarefas. Deixamos aquilo que nos parece mais difícil e complicado para depois, e nos distraímos com outras atividades que trazem gratificação instantânea, porém passageira. Em seguida, nos sentimos frustrados, improdutivos e com baixa autoestima por não termos realizado o que era realmente importante naquele momento. De certa forma, “deixar para depois” também é uma escolha, mesmo que inconsciente.

A procrastinação é um mal que vem assombrando a maioria de nós. Adiar responsabilidades e compromissos é como pisar em uma areia movediça, onde nos afundamos cada vez mais. Para sair dela é preciso acabar com a estagnação, enfrentar o medo que nos limita e ouvir a nossa voz interior com mais coragem e menos autojulgamento.

Gosto de uma frase que diz: Toda escolha requer ousadia. Que as nossas decisões, então, sejam feitas de forma consciente, segura e com uma dose de atrevimento. Erros e acertos fazem parte do caminho e isso deve ser encarado com mais naturalidade e leveza. Penso que só assim saberemos enxergar, com mais nitidez, as boas oportunidades que a vida tem para nos oferecer.

O que acontece em nossas vidas é neutro, nem positivo nem negativo.Texto adaptado de Amor Incondicional de Paul Ferrini

O que acontece em nossas vidas é neutro, nem positivo nem negativo. Somos nós que decidimos se é positivo ou negativo. Em nossas experiências, qualquer coisa pode se investir de qualidades espirituais se permearmos de amor, aceitação e perdão. Até mesmo as coisas ruins do ano que passou podem ser transformadas pelo poder do amor. Achamos que conhecemos o significado dos eventos que ocorrem em nossas vidas. Nada poderia estar mais longe da verdade. Nós não conhecemos o significado de nada, pois a tudo nós impomos o nosso próprio significado.

Se quer conhecer o significado do que acontece na sua vida, pare de dar a sua própria interpretação. Deixe que a situação se defina. Sinta-a por inteiro. Deixe que a situação lhe mostre a razão por que surgiu na sua vida. Pergunte-se "Como essa situação pode me ajudar a amar mais plenamente? O que ela está exigindo de mim que ainda estou me negando a fazer?" Essa simples pergunta vai levá-lo ao âmago da questão, pois demonstra a sua disposição para olhar a situação como um presente e não como um castigo.

domingo, 16 de julho de 2017

Não , não somos obrigados a aguentar tudo. Paciência tem limites e a vida é para ser vivida , não suportada .Por Sílvia Marques.


A vida é feita para ser vivida , não suportada. Quando somos obrigados a relevar tudo, ignorando os nossos sentimentos , ignorando feridas ainda abertas, impomos a nós mesmos uma espécie de tortura psicológica. E não devemos impor sofrimento a ninguém, incluindo a nós mesmos, para agradar as outras pessoas.

Ser gentil, amigável e prestativo é uma coisa ótima. Se mais pessoas dispusessem de um pouco do seu tempo e energia para ajudar os outros , provavelmente o mundo seria um lugar bem menos hostil e viver seria muito mais leve.

Por outro lado, não devemos confundir gentileza com passividade. Não devemos permitir que abusem da nossa boa vontade e passem por cima de nós porque somos bonzinhos e vamos aceitar e perdoar tudo.

Acredito firmemente no perdão. Porém, acredito também que deve ser perdoado quem pede perdão, quem deseja ser perdoado, quem demonstra arrependimento e vontade de dar um novo rumo para a relação.

Não, não somos obrigados a aguentar tudo. Paciência tem limites. Ninguém precisa sair pelo mundo se vingando, mas também ninguém deve ser obrigado a conviver e a ser gentil e a distribuir beijinhos e sorrisinhos para quem nos provocou sofrimento, para quem nos magoou gratuitamente.

Na maioria das vezes, como afirma o ditado popular , quem bate , esquece . Mas quem apanha não.

Quando ofendemos ou prejudicamos de forma mais objetiva uma pessoa , causando danos à sua vida , devemos sim tentar consertar o que fizemos de errado ou pelo menos tentar amenizar de alguma forma o estrago que provocamos.

Sim, nem sempre é possível consertar nossos erros. Nem sempre é possível se aproximar de quem prejudicamos para demonstrar nosso arrependimento. Em alguns casos , nos mantermos longe é o melhor a se fazer. Mas neste post, quero me centrar nos casos em que é possível voltar atrás e corrigir o erro e mesmo assim a pessoa se recusa. Quero me centrar no fato de que ninguém é obrigado a engolir tudo porque é gentil e amigável.

A vida é feita para ser vivida , não suportada. Quando somos obrigados a relevar tudo, ignorando os nossos sentimentos , ignorando feridas ainda abertas, impomos a nós mesmos uma espécie de tortura psicológica. E não devemos impor sofrimento a ninguém, incluindo a nós mesmos, para agradar as outras pessoas.

Não, não somos obrigados a conviver com gente que nos põe para baixo com um sorriso falso nos lábios e palavras pseudo educadas. Não somos obrigados a conviver com gente que rouba o nosso ar, que baixa a nossa energia , que nos promove qualquer tipo de constrangimento. Não somos obrigados a agradar quem não se esforça minimamente para nos alegrar. Não somos obrigados a nos sacrificar por quem não dá a mínima por nossos sentimentos. Não somos obrigados a compreender e a demonstrar empatia por quem nos atropelou feito um trator.

Como disse Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sim, somos nós que conhecemos os nossos limites e sabemos até onde podemos caminhar sem forçar as articulações da alma. Somos nós que podemos mensurar o peso de uma ofensa e a extensão de um estrago sofrido em nossa vida.