quarta-feira, 7 de junho de 2017

Um sistema que não passa de uma transmissão de informações. Texto de Claudio Naranjo

“Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações. É um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas."

domingo, 4 de junho de 2017

O que é Deus pra você? - Texto de Alfredo Carneiro

Você acredita em Deus? Essa pergunta carrega um sério problema de linguagem. Consideremos que eu pergunte isso para um brasileiro, que é um indivíduo nascido em um país predominantemente cristão, sendo assim, provavelmente ele irá pensar que me refiro ao Deus cristão. Se ele responde que acredita, posso pensar que ele refere-se à Bíblia, logo, estaremos de acordo. Aceitamos a mesma concepção, ainda que normalmente cristãos não vejam Deus como conceito ou concepção.

Contudo, se eu fosse indiano, um brasileiro poderia me responder que acredita em Deus. Isso me deixaria satisfeito, mas ocorre aqui um problema de linguagem: não falamos sobre a mesma coisa. Até mesmo católicos e evangélicos enfrentam problemas de linguagem, pois, convenhamos que são concepções diferentes (um Deus ouve sua mãe e outro não, tendo portanto “personalidades” diferentes).

Por mais que católicos afirmem que o evangélicos não interpretam bem as escrituras (e vice-versa), o fato é que são conceitos diferentes de Deus (qual deles está certo, diria Sócrates, só o Deus sabe). Sendo assim, Deus é um conceito e como tal precisa de um acordo para que a pergunta “você acredita em Deus?” seja respondida. O religioso não pensa assim, afinal, seu Deus é o certo e sua concepção é a certa. Caso contrário não seria religioso.

Se pergunto isso para um ateu, ele pode dizer que não acredita em Deus. Mas ele pode aceitar que existe uma inteligência ordenadora e impessoal na natureza que não “ouve” orações. Dizendo que chamo isso de Deus, ele pode dizer que acredita nessa ideia. De certa maneira, somos ateus de outros deuses, pois cristãos negam a concepção indiana e vice-versa, só para dar um exemplo. Mesmo o ateu é adepto de algo, ou melhor, de um “não deus”, e ele acredita nisso de forma quase religiosa sendo, portanto, um tipo religioso (isso se aceitarmos a concepção de “religioso” enquanto dogmático). Um tipo não religioso não se diz ateu e nem se interessa por conversas dessa natureza.

Deus e a filosofia da linguagem

A filosofia da linguagem se pergunta essas coisas: “o que é Deus para você?” ou “o que é verdade para você?”. Ela se pergunta essas coisas para evitar problemas de linguagem. A filosofia quer saber qual o conceito adotado, mas, agindo assim, pode ferir visões religiosas (um religioso diria: “ora, o Deus único é o conceito único”). Wittgenstein afirmou que existem coisas que não podem ser ditas, e Deus seria uma delas. Ele aconselha que não procuremos imediatamente o significado de uma palavra no dicionário, mas, antes, perguntemos a quem disse tal palavra (o significado é dado pelo significante). Deus, portanto, é uma palavra e precisa de uma definição. Se não consigo defini-la, melhor então não dizê-la.

O conselho de Descartes

Descartes deu um valioso conselho para os crentes de todas as crenças. Filósofo viajante que era, afirmou: “É bom conhecer outras culturas para que não julguemos ridículos os hábitos de outros povos, como fazem aqueles que nada viram”. Sobre Deus, seria bom guardar para nós nosso conceito, pois, ele será sempre pessoal e incomunicável. Se meu conceito me deixa pleno e satisfeito, ele será o Deus do meu coração. Que importa o que outros pensam sobre algo tão íntimo? Contudo, se meu Deus obriga que outros aceitem meu conceito, então chegou a hora de rever meus conceitos. Ou estudar um pouco de filosofia da linguagem.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Era das Bolhas - Por Erick Morais

Não é preciso muita coisa, basta um assunto um pouco mais polêmico e a histeria coletiva se instaura. Insultos, xingamentos, farpas são trocados em algo que deveria ser um diálogo, a troca de ideias, de argumentações, de vivências, acerca de alguma coisa. E nesse processo de ruptura cognitiva e comunicativa, há a formação das bolhas. Isoladas, sozinhas, e extremamente sensíveis ao toque do outro, acima de tudo, se este outro pensa diferente.
Contemporaneamente, com o desenvolvimento das tecnologias da informação e, consequentemente, o aperfeiçoamento da internet e suas redes sociais, cada indivíduo, isoladamente, passou a adquirir um porta-voz, um espaço em que pode dizer tudo que pensa sobre qualquer coisa. É como se existissem especialistas para tudo, embora o mundo ande mais sem respostas do que nunca.
Evidentemente, a possibilidade de possuir um espaço autonomamente para discorrer sobre o que se pensa é algo extremamente maravilhoso para a comunicação. No entanto, para que esta ocorra, faz-se necessário a presença de um interlocutor. Ou seja, para todo aquele que fala, é preciso que exista alguém que escute. Sem esse processo não há o estabelecimento de um canal comunicativo, e sim, de um espelho que apenas reflete o que eu mesmo falo. Do mesmo modo que acreditar que a comunicação se baseia somente em aceitações, likes e corações é ingenuidade ou falta de entendimento de como funciona verdadeiramente uma rede social.
Nesse sistema, têm-se pessoas sedentas por falar, mas jamais desejosas por ouvir, implicando, por conseguinte, a dificuldade da comunicação, embora, paradoxalmente, se viva em um mundo cercado de cabos e fios. Esse problema do ouvir já era anunciado por Rubem Alves, que certa feita disse:

“Sempre vejo anunciando cursos de oratória. Nunca vi curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.”

Desse modo, toda vez que alguém discorda de um argumento dado, ao invés de haver uma análise racional acerca do que foi dito e, por conseguinte, a construção de um contra-argumento, buscando enxergar a problemática em um panorama mais amplo; ocorre o lançamento de palavras que destroem a possibilidade da formação de um diálogo e, consequentemente, um debate no plano das ideias, de forma racional, humana e respeitosa.
Há, assim, o fortalecimento das bolhas e da perda da função da linguagem, que é reduzida constantemente a um patamar de animalidade. Os sujeitos fechados em si mesmos, não conseguem enxergar o que os cerca, vivendo como ilhas afetivas, isoladas de todo e qualquer pensamento estranho. Vivendo como “medianeras”, paredes sem janela, vida sem abertura para o novo.
“As pessoas, as cidades, o mundo está cheio de gente fechada, não só pela arquitetura, mas pessoas fechadas em si, em sua solidão, em seu mundo. Pessoas que foram “construídas” como medianeiras, paredes sem janela, vida sem abertura para o novo.”
Contudo, sendo a comunicação de vital importância para o desenvolvimento humano do indivíduo, o que podemos esperar de uma sociedade que vai na contramão da comunicabilidade?
Talvez a resposta esteja no crescimento das intolerâncias, dos preconceitos, dos extremismos, dos fundamentalismos, demonstrando mais uma vez a paradoxalidade dos nossos tempos, bem como, a urgente necessidade de revisitar o nosso ser, buscando compreender que existimos enquanto seres sociais e, portanto, precisamos estar abertos ao novo, já que janelas fechadas tornam o ambiente completamente sufocante e irrespirável. O que só pode levar a autodestruição, porque sem ar puro, nem mesmo as bolhas conseguem se manter cheias.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

As crises nos acordam para as coisas boas que não percebemos - Por Erick Morais

Saramago costumava dizer que o destino tem que dar muitos rodeios antes de chegar a qualquer parte. Ou seja, a vida tem seus próprios caminhos, coisas que não controlamos, suas ironias, suas voltas, de modo que sempre haverá o inesperado e dificuldades para enfrentar. Sempre haverá desilusões, quedas e ultrapassagens. No entanto, ainda que os momentos de crise sejam horríveis, eles podem significar um despertar, pois como diz Sean (Robin Williams) no filme Gênio Indomável: “As crises nos acordam para as coisas boas que não percebemos”.

Não há como escapar, todos nós um dia passaremos por um momento que colocará o nosso emocional no chão, a mente perturbada, cercados de desilusão e desespero. Não há como escapar porque “A vida não te dá traves de proteção” e a dor e o sofrimento são inerentes à vida, assim como o amor e a alegria.

Embora não haja como escapar, no meio da dor parece que percebemos quem somos de fato e o que queremos da vida. Sem pressões externas, sem a sociedade, é apenas o eu e o mim dialogando e, assim, conseguimos enxergar sem máscaras a constituição do nosso ser e o que ele grita desesperadamente para fazermos. Por isso, as crises nos acordam para o que não percebemos, porque elas nos acordam da vida, muitas vezes, no controle remoto, fazendo-nos enxergar aquilo que na trivialidade do cotidiano deixamos passar, enquanto fingimos estar tudo bem.

Como disse, ninguém quer sofrer e não acredito que fomos feitos para isso. Todavia, nos momentos de tensão surgem coisas maravilhosas, a meu ver, porque nesses momentos permitimos estar mais próximos do que realmente somos. Dessa maneira, as crises podem nos levar a um processo de autoconhecimento e, por conseguinte, de maior felicidade, já que ninguém é verdadeiramente feliz sendo um forasteiro de si próprio.

As crises nos mostram que podemos mudar, que não devemos nos acostumar, que há sempre algo a fazer com o que a vida fez conosco. Da mesma forma que nos faz perceber o que realmente nos faz feliz, nos mostra que devemos valorizar as pessoas que em momento algum largam a nossa mão, e faz com que o nosso olhar possua mais doçura para enxergar as belezas que explodem aos nossos olhos, mas não somos capazes de perceber.

Rubem Alves certa feita disse que foram as desilusões que o levaram a ultrapassagens, isto é, sem as desilusões que sofrera, ele jamais seria o Rubem que conhecemos. Concordo plenamente com ele, pois sei que sem as minhas crises, eu jamais seria quem sou hoje. Sei também o quão doloroso é esse processo, mas sei que de muitas dores vem a alegria, como a mulher que senti a dor do parto, mas se regozija com a beleza da vida. As nossas crises são como um parto. É necessário enfrentá-las se quisermos renascer, já que lembrando mais uma vez Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O LIVRO DA LUZ.

"(...) É a vida, amigo, é a vida quem te dá tudo. Absolutamente tudo. A vida dá-te tudo, desde o ar que respiras até à roupa que vestes, os filhos que tens, os amigos, a tua educação, dinheiro, emprego, relações. Já reparaste na quantidade de coisas e pessoas que a vida já te deu? Porque é que ficas sempre a olhar para o que não tens? Porque querias ter. E querer é ego.
Achas-te no direito de ter um certo número de coisas, mas em nome de quê? Quem tas deu? Quem te disse que eram tuas? Foi o teu ego que te encheu a cabeça com a ilusão de que tens direito a tudo. Faço-te uma proposta. Esquece tudo. Fica a zeros. Considera que não és dono de nada. De absolutamente nada. Tudo é da vida. E agora, devagar, começa a percepcionar todas as coisas que a vida já te deu. Tudo o que tens recebido.
Começa a ver, uma a uma, cada coisa que a vida se disponibilizou a oferecer-te, cada coisa, cada pessoa, cada emoção. E tenta sentir a gratidão por tantas coisas já recebidas. Deixa essa gratidão crescer no teu peito. Deixa que ela invada com a sua frequência excepcional a tua energia. E nunca mais vais ver a vida da mesma maneira.(...)" O LIVRO DA LUZ.

Triste destino é o homem morrer conhecido de todos, mas desconhecido a si mesmo. Por Erick Morais

Por que a solidão assusta tanto as pessoas? Será que o encontro consigo mesmo é tão assustador? Pascal já dizia que os homens sentem enorme dificuldade em olhar-se no espelho sem máscaras, pois o encontro entre o eu e o mim sempre é doloroso. Em outras palavras, o autoconhecimento, tão importante para o crescimento emocional, depende de uma dose de solidão. No entanto, na sociedade contemporânea a solidão parece não agradar muito as pessoas.

Vivemos o tempo inteiro em multidões, sejam elas reais ou virtuais, de modo que evitamos ao máximo estar sozinhos. É como se quiséssemos evitar o encontro com aquilo que de alguma forma nos fará olhar a ordem estabelecida de outra forma e, por consequência, se afastar da manada. É sempre mais fácil seguir a manada, se adequar ao protocolo social, do que ser um inadequado que se guia pelo seu próprio querer.

Sendo assim, procuramos andar aglomerados, fazendo as mesmas coisas, comportando-se da mesma maneira, ainda que não haja uma vontade imanente de fazer tais coisas ou agir de determinada forma. Não nos damos conta que somos apenas reprodutores da vontade de terceiros que não tem nada a ver conosco.

Essa adequação acontece em grande parte pelo medo da solidão. Obviamente, somos seres sociais, como atentou Aristóteles. Logo, precisamos conviver com outras pessoas, ter boas relações, o que, aliás, é muito bom para o indivíduo. Todavia, também é necessário que o indivíduo tenha tempo para si, em solidão, a fim de que possa avaliar a sua vida, tomar decisões sem pressões alheias, rever seus atos, reaver seus relacionamentos, etc. Esse processo faz com que o indivíduo possa se conhecer melhor (autoconhecimento) e conhecendo-se melhor, perceberá o que de fato o faz feliz.

Se fugirmos o tempo inteiro da solidão, nunca nos conheceremos verdadeiramente e, assim, nossa vida não terá identidade própria, mas antes, seguirá os ditames de outras vidas. Quantas vezes estamos imersos o tempo inteiro em relações e nos comportamos de determinada forma, e quando nos afastamos percebemos que aquelas pessoas e aquele comportamento não se coadunavam com o que somos?

Ficar um sábado em casa, assistindo a um filme ou lendo um livro, ao invés de sair com os amigos pode ser uma ótima experiência, em que na tranquilidade do silêncio das vozes alheias, podemos perceber coisas que passam despercebidas no dia a dia, em que estamos envoltos por um sem número de pessoas (sejam reais ou virtuais). E, assim, descobrimos muito sobre nós mesmos e, sobretudo, sobre o que não somos.

Esse processo de autoconhecimento não é fácil, uma vez que ao descobrirmos mais sobre nós mesmos, poderemos deixar de achar muitas coisas, as quais fazíamos, interessante, incluindo pessoas. Por isso, de forma genérica, as pessoas buscam passar a maior parte do tempo “conectadas”, como se a solidão não possuísse qualquer utilidade.

O que buscamos, na verdade, é fugir das dores que o autoconhecimento promove, já que sabendo o que se é e buscando-se o que se quer, há grande chance de sermos vistos como loucos e de deixarmos de ser uma peça interessante para o grupo. Afinal, em um mundo que vive sob ditaduras, como a da felicidade, todos agem do mesmo modo, fazem as mesmas coisas, são bem sucedidas e estão sempre felizes, não é interessante ter alguém que viva do jeito que lhe apraz, que pense por si só e não siga as regras do jogo.

A vida em sociedade é necessária e extremamente importante, desde que cada um possa ser o que de fato é. Somente, assim, criam-se relações de verdade, com raízes e sinceridade e não troca de conveniências, em que se busca tão somente a fuga do medo de estar só. A verdadeira felicidade está em buscar o que realmente faz o coração terno. Portanto, às vezes, a solidão é importante para que possamos saber o que faz o coração terno, e não apenas reproduzir o que o protocolo social diz ser o caminho da felicidade.
Em hipótese alguma a solidão deve ser adotada como morada. Mas, visitá-la de vez em quando é tão importante quanto se relacionar com alguém, pois precisamos saber o que somos para que possamos dar o que há de mais puro e verdadeiro em nós. Antes de vivermos uma relação, é preciso saber o que somos, e isso só aprendemos na companhia da solidão. Pois, como dizia Francis Bacon:

“Triste destino é o homem morrer conhecido de todos, mas desconhecido a si mesmo.”

Amar uma divindade...

Amar uma divindade com o intuito de obter dividendos e como amar o(a) parceiro(a) para que os nossos caprichos infantis sejam satisfeitos.
Quando o nosso agir vivem a função do interesse, tornamo-nos falsos!