segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Era das Bolhas - Por Erick Morais

Não é preciso muita coisa, basta um assunto um pouco mais polêmico e a histeria coletiva se instaura. Insultos, xingamentos, farpas são trocados em algo que deveria ser um diálogo, a troca de ideias, de argumentações, de vivências, acerca de alguma coisa. E nesse processo de ruptura cognitiva e comunicativa, há a formação das bolhas. Isoladas, sozinhas, e extremamente sensíveis ao toque do outro, acima de tudo, se este outro pensa diferente.
Contemporaneamente, com o desenvolvimento das tecnologias da informação e, consequentemente, o aperfeiçoamento da internet e suas redes sociais, cada indivíduo, isoladamente, passou a adquirir um porta-voz, um espaço em que pode dizer tudo que pensa sobre qualquer coisa. É como se existissem especialistas para tudo, embora o mundo ande mais sem respostas do que nunca.
Evidentemente, a possibilidade de possuir um espaço autonomamente para discorrer sobre o que se pensa é algo extremamente maravilhoso para a comunicação. No entanto, para que esta ocorra, faz-se necessário a presença de um interlocutor. Ou seja, para todo aquele que fala, é preciso que exista alguém que escute. Sem esse processo não há o estabelecimento de um canal comunicativo, e sim, de um espelho que apenas reflete o que eu mesmo falo. Do mesmo modo que acreditar que a comunicação se baseia somente em aceitações, likes e corações é ingenuidade ou falta de entendimento de como funciona verdadeiramente uma rede social.
Nesse sistema, têm-se pessoas sedentas por falar, mas jamais desejosas por ouvir, implicando, por conseguinte, a dificuldade da comunicação, embora, paradoxalmente, se viva em um mundo cercado de cabos e fios. Esse problema do ouvir já era anunciado por Rubem Alves, que certa feita disse:

“Sempre vejo anunciando cursos de oratória. Nunca vi curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.”

Desse modo, toda vez que alguém discorda de um argumento dado, ao invés de haver uma análise racional acerca do que foi dito e, por conseguinte, a construção de um contra-argumento, buscando enxergar a problemática em um panorama mais amplo; ocorre o lançamento de palavras que destroem a possibilidade da formação de um diálogo e, consequentemente, um debate no plano das ideias, de forma racional, humana e respeitosa.
Há, assim, o fortalecimento das bolhas e da perda da função da linguagem, que é reduzida constantemente a um patamar de animalidade. Os sujeitos fechados em si mesmos, não conseguem enxergar o que os cerca, vivendo como ilhas afetivas, isoladas de todo e qualquer pensamento estranho. Vivendo como “medianeras”, paredes sem janela, vida sem abertura para o novo.
“As pessoas, as cidades, o mundo está cheio de gente fechada, não só pela arquitetura, mas pessoas fechadas em si, em sua solidão, em seu mundo. Pessoas que foram “construídas” como medianeiras, paredes sem janela, vida sem abertura para o novo.”
Contudo, sendo a comunicação de vital importância para o desenvolvimento humano do indivíduo, o que podemos esperar de uma sociedade que vai na contramão da comunicabilidade?
Talvez a resposta esteja no crescimento das intolerâncias, dos preconceitos, dos extremismos, dos fundamentalismos, demonstrando mais uma vez a paradoxalidade dos nossos tempos, bem como, a urgente necessidade de revisitar o nosso ser, buscando compreender que existimos enquanto seres sociais e, portanto, precisamos estar abertos ao novo, já que janelas fechadas tornam o ambiente completamente sufocante e irrespirável. O que só pode levar a autodestruição, porque sem ar puro, nem mesmo as bolhas conseguem se manter cheias.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

As crises nos acordam para as coisas boas que não percebemos - Por Erick Morais

Saramago costumava dizer que o destino tem que dar muitos rodeios antes de chegar a qualquer parte. Ou seja, a vida tem seus próprios caminhos, coisas que não controlamos, suas ironias, suas voltas, de modo que sempre haverá o inesperado e dificuldades para enfrentar. Sempre haverá desilusões, quedas e ultrapassagens. No entanto, ainda que os momentos de crise sejam horríveis, eles podem significar um despertar, pois como diz Sean (Robin Williams) no filme Gênio Indomável: “As crises nos acordam para as coisas boas que não percebemos”.

Não há como escapar, todos nós um dia passaremos por um momento que colocará o nosso emocional no chão, a mente perturbada, cercados de desilusão e desespero. Não há como escapar porque “A vida não te dá traves de proteção” e a dor e o sofrimento são inerentes à vida, assim como o amor e a alegria.

Embora não haja como escapar, no meio da dor parece que percebemos quem somos de fato e o que queremos da vida. Sem pressões externas, sem a sociedade, é apenas o eu e o mim dialogando e, assim, conseguimos enxergar sem máscaras a constituição do nosso ser e o que ele grita desesperadamente para fazermos. Por isso, as crises nos acordam para o que não percebemos, porque elas nos acordam da vida, muitas vezes, no controle remoto, fazendo-nos enxergar aquilo que na trivialidade do cotidiano deixamos passar, enquanto fingimos estar tudo bem.

Como disse, ninguém quer sofrer e não acredito que fomos feitos para isso. Todavia, nos momentos de tensão surgem coisas maravilhosas, a meu ver, porque nesses momentos permitimos estar mais próximos do que realmente somos. Dessa maneira, as crises podem nos levar a um processo de autoconhecimento e, por conseguinte, de maior felicidade, já que ninguém é verdadeiramente feliz sendo um forasteiro de si próprio.

As crises nos mostram que podemos mudar, que não devemos nos acostumar, que há sempre algo a fazer com o que a vida fez conosco. Da mesma forma que nos faz perceber o que realmente nos faz feliz, nos mostra que devemos valorizar as pessoas que em momento algum largam a nossa mão, e faz com que o nosso olhar possua mais doçura para enxergar as belezas que explodem aos nossos olhos, mas não somos capazes de perceber.

Rubem Alves certa feita disse que foram as desilusões que o levaram a ultrapassagens, isto é, sem as desilusões que sofrera, ele jamais seria o Rubem que conhecemos. Concordo plenamente com ele, pois sei que sem as minhas crises, eu jamais seria quem sou hoje. Sei também o quão doloroso é esse processo, mas sei que de muitas dores vem a alegria, como a mulher que senti a dor do parto, mas se regozija com a beleza da vida. As nossas crises são como um parto. É necessário enfrentá-las se quisermos renascer, já que lembrando mais uma vez Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O LIVRO DA LUZ.

"(...) É a vida, amigo, é a vida quem te dá tudo. Absolutamente tudo. A vida dá-te tudo, desde o ar que respiras até à roupa que vestes, os filhos que tens, os amigos, a tua educação, dinheiro, emprego, relações. Já reparaste na quantidade de coisas e pessoas que a vida já te deu? Porque é que ficas sempre a olhar para o que não tens? Porque querias ter. E querer é ego.
Achas-te no direito de ter um certo número de coisas, mas em nome de quê? Quem tas deu? Quem te disse que eram tuas? Foi o teu ego que te encheu a cabeça com a ilusão de que tens direito a tudo. Faço-te uma proposta. Esquece tudo. Fica a zeros. Considera que não és dono de nada. De absolutamente nada. Tudo é da vida. E agora, devagar, começa a percepcionar todas as coisas que a vida já te deu. Tudo o que tens recebido.
Começa a ver, uma a uma, cada coisa que a vida se disponibilizou a oferecer-te, cada coisa, cada pessoa, cada emoção. E tenta sentir a gratidão por tantas coisas já recebidas. Deixa essa gratidão crescer no teu peito. Deixa que ela invada com a sua frequência excepcional a tua energia. E nunca mais vais ver a vida da mesma maneira.(...)" O LIVRO DA LUZ.

Triste destino é o homem morrer conhecido de todos, mas desconhecido a si mesmo. Por Erick Morais

Por que a solidão assusta tanto as pessoas? Será que o encontro consigo mesmo é tão assustador? Pascal já dizia que os homens sentem enorme dificuldade em olhar-se no espelho sem máscaras, pois o encontro entre o eu e o mim sempre é doloroso. Em outras palavras, o autoconhecimento, tão importante para o crescimento emocional, depende de uma dose de solidão. No entanto, na sociedade contemporânea a solidão parece não agradar muito as pessoas.

Vivemos o tempo inteiro em multidões, sejam elas reais ou virtuais, de modo que evitamos ao máximo estar sozinhos. É como se quiséssemos evitar o encontro com aquilo que de alguma forma nos fará olhar a ordem estabelecida de outra forma e, por consequência, se afastar da manada. É sempre mais fácil seguir a manada, se adequar ao protocolo social, do que ser um inadequado que se guia pelo seu próprio querer.

Sendo assim, procuramos andar aglomerados, fazendo as mesmas coisas, comportando-se da mesma maneira, ainda que não haja uma vontade imanente de fazer tais coisas ou agir de determinada forma. Não nos damos conta que somos apenas reprodutores da vontade de terceiros que não tem nada a ver conosco.

Essa adequação acontece em grande parte pelo medo da solidão. Obviamente, somos seres sociais, como atentou Aristóteles. Logo, precisamos conviver com outras pessoas, ter boas relações, o que, aliás, é muito bom para o indivíduo. Todavia, também é necessário que o indivíduo tenha tempo para si, em solidão, a fim de que possa avaliar a sua vida, tomar decisões sem pressões alheias, rever seus atos, reaver seus relacionamentos, etc. Esse processo faz com que o indivíduo possa se conhecer melhor (autoconhecimento) e conhecendo-se melhor, perceberá o que de fato o faz feliz.

Se fugirmos o tempo inteiro da solidão, nunca nos conheceremos verdadeiramente e, assim, nossa vida não terá identidade própria, mas antes, seguirá os ditames de outras vidas. Quantas vezes estamos imersos o tempo inteiro em relações e nos comportamos de determinada forma, e quando nos afastamos percebemos que aquelas pessoas e aquele comportamento não se coadunavam com o que somos?

Ficar um sábado em casa, assistindo a um filme ou lendo um livro, ao invés de sair com os amigos pode ser uma ótima experiência, em que na tranquilidade do silêncio das vozes alheias, podemos perceber coisas que passam despercebidas no dia a dia, em que estamos envoltos por um sem número de pessoas (sejam reais ou virtuais). E, assim, descobrimos muito sobre nós mesmos e, sobretudo, sobre o que não somos.

Esse processo de autoconhecimento não é fácil, uma vez que ao descobrirmos mais sobre nós mesmos, poderemos deixar de achar muitas coisas, as quais fazíamos, interessante, incluindo pessoas. Por isso, de forma genérica, as pessoas buscam passar a maior parte do tempo “conectadas”, como se a solidão não possuísse qualquer utilidade.

O que buscamos, na verdade, é fugir das dores que o autoconhecimento promove, já que sabendo o que se é e buscando-se o que se quer, há grande chance de sermos vistos como loucos e de deixarmos de ser uma peça interessante para o grupo. Afinal, em um mundo que vive sob ditaduras, como a da felicidade, todos agem do mesmo modo, fazem as mesmas coisas, são bem sucedidas e estão sempre felizes, não é interessante ter alguém que viva do jeito que lhe apraz, que pense por si só e não siga as regras do jogo.

A vida em sociedade é necessária e extremamente importante, desde que cada um possa ser o que de fato é. Somente, assim, criam-se relações de verdade, com raízes e sinceridade e não troca de conveniências, em que se busca tão somente a fuga do medo de estar só. A verdadeira felicidade está em buscar o que realmente faz o coração terno. Portanto, às vezes, a solidão é importante para que possamos saber o que faz o coração terno, e não apenas reproduzir o que o protocolo social diz ser o caminho da felicidade.
Em hipótese alguma a solidão deve ser adotada como morada. Mas, visitá-la de vez em quando é tão importante quanto se relacionar com alguém, pois precisamos saber o que somos para que possamos dar o que há de mais puro e verdadeiro em nós. Antes de vivermos uma relação, é preciso saber o que somos, e isso só aprendemos na companhia da solidão. Pois, como dizia Francis Bacon:

“Triste destino é o homem morrer conhecido de todos, mas desconhecido a si mesmo.”

Amar uma divindade...

Amar uma divindade com o intuito de obter dividendos e como amar o(a) parceiro(a) para que os nossos caprichos infantis sejam satisfeitos.
Quando o nosso agir vivem a função do interesse, tornamo-nos falsos!

Tolerar é permitir que o outro seja outro, mas você não é obrigado a omitir-se. Por Josué Ghizoni


Tolerar significa suportar, aceitar. Para tolerar preciso desenvolver a flexibilidade, a condescendência, a aceitação.

Isto é fácil?
A Programação Neurolinguística (PNL) tem como um dos seus pressupostos básicos o seguinte: O meu mapa não é o território. Compreender que cada um vê o mundo de acordo com sua realidade interna. Para compreender, aceitar, tolerar o modo, o pensar, o agir do outro, preciso “colocar o seu sapato”, ou seja, colocar-me no lugar do outro e ver a partir do seu mapa interno. Aí vamos perceber que a pessoa tem toda a razão.

De fato, não é fácil a convivência com quem pensa diferente. Mas certas práticas ou a aquisição de certas virtudes, como essa da tolerância ou da flexibilidade facilitam em muito a boa convivência social.

A ONU considerou a tolerância tão importante para a paz mundial que criou o Dia Internacional da Tolerância: 16 de novembro. Isto devido às intolerâncias no campo religioso. Por sinal, dois campos onde mais se carece de tolerância é mesmo no campo religioso e no campo político. A melhor atitude de tolerância no campo religioso é você admitir que a possibilidade de salvação existe fora daquilo em que você acredita como único caminho. Salva-se o quem segue sua consciência e não uma religião.
Foi o filósofo Espinosa quem primeiro defendeu a tolerância com argumentos objetivos, mostrando que a violência e a imposição não podem promover a fé.

Tolerar é suportar e o Apóstolo Paulo fala isto mesmo: “Suportai-vos uns aos outros”. Deixar o outro ser outro. Isto não significa que não tenho responsabilidade diante do agir das pessoas. Jesus mesmo pede para corrigir o irmão. A Bíblia pede aos pais para corrigirem os filhos. Suportar ou tolerar não quer dizer omitir-se.

Sem sombra de dúvida que tolerar é permitir que o outro seja outro, que pense diferente. Saber conviver pacificamente com aquele que pensa diferente no campo religioso e político é, sem dúvida, um dos maiores desafios do mundo atual.

O mundo é uma Baleia Azul

O mundo é uma Baleia Azul
As doenças mentais estão aqui e não é de ontem, não é do jogo que começou na Rússia, não é da conta da Netflix — é da vida
Texto de Marta Guerreiro.

Subitamente, as redes sociais ficaram inundadas com artigos de ajuda para pessoas com depressão. Subitamente, as crianças estão a ser avisadas sobre os perigos online e os perigos das doenças mentais. Subitamente, aquilo que devia ser feito todos os dias está a ser feito agora e até aqui tudo bem. Agora vou questionar: até quando? Talvez até a série 13 Reasons Why deixar de ser tão falada ou até o jogo da Baleia Azul deixar de ser notícia.

No mundo real somos séries sobre suicídio e somos baleias azuis, cor-de-rosa, pretas, brancas e amarelas. As doenças mentais estão aqui e não é de ontem, não é do jogo que começou na Rússia, não é da conta da Netflix — é da vida. No mundo real, as crianças, pré-adolescentes, adolescentes e adultos precisam de aconselhamentos e precisam de valorização quando têm doenças como ansiedade ou depressão. A automutilação, para quem não sabe, é um vício como o tabaco e, por favor, poupem-me os discursos das chamadas de atenção. Mesmo que seja assim, não acham que é necessário socorrer e entender as motivações?

Aquilo que ainda me deixa mais intrigada são as pessoas que passaram e passam por estas doenças mas conseguem continuar a usar estas modas, citações ou referências como piada, utilizando mecanismos para se rirem da dor. Piadas sobre violações são horríveis, mas sobre suicídio não faz mal? O complexo de vítima não tem que ser lido como desespero, mas pela falta de empatia e constante chamada de atenção. Não existe nada de errado em lermos ou vermos coisas que nos fazem sentir tão mal que decidimos não sair da cama. Mentira.

A depressão não nos deixa sair da cama, não é desleixo ou preguiça nossa. Essas coisas que nos deixam na corda-bamba entre a vida e a morte podem ser: discussões, fim de relações, imagens de filmes que nos recordam situações graves da nossa vida ou até mesmo — rufos — redes sociais. As redes sociais estão de mão dada com o bullying, perseguição, gozo gratuito e falta de empatia. As redes sociais não são levadas a sério, mas são causadoras de ansiedade, pânico, depressão e comportamentos autodestrutivos — muito antes até de serem utilizadas para “jogos” que atingem pessoas em risco por já estarem psicologicamente doentes. A depressão, como costumo colocar a pessoas não informadas, é como ter um pé partido e existem assuntos, imagens, palavras ou conversas que se transformam num tijolo enorme e esse tijolo é atirado para aquele pé partido. A recuperação demorará mais e a dor aumenta; acrescenta, não se vê — mas está ali. A depressão não existe apenas enquanto as séries disserem que sim. A depressão não está ali apenas enquanto adolescentes morrem vítimas de jogos que utilizam o desequilíbrio psicológico para o término da vida. A depressão está, esteve e vai estar em violência doméstica, ambientes familiares desequilibrados, objectivos não concretizados, violações, bullying, em cyberbullying.

A sociedade é, por si só, uma Baleia Azul: ignora os riscos, desvaloriza as doenças psicológicas, incentiva a não-empatia e procura justificações para as situações às quais fecharam os olhos. As famílias dizem que são “fases”, as mangas cobrem os cortes, os professores “até deixam passar”, as amigas lá se afastam e o mundo deixa as pessoas — doentes — sozinhas. Peço desculpa pela falta de etiqueta mas o que o sistema grita a esta gente é: "desenmerdem-se". Depois choram e revoltam-se mas só até jogar o Benfica ou haver um episódio especial da novela da noite. Desta vez têm um jogo para culpar. Anteontem eram cassetes, amanhã o que será?